domingo, 12 de maio de 2013

Que valem os horóscopos de jornal?

"Quando se fala em astrologia ocorrem de imediato as ideias dos Signos do Zodíaco e da previsão do futuro, no entanto, ambas são formas simples de pensar um assunto que é muito mais profundo. Um mapa astral, para além da posição do Sol, inclui a posição da Lua, dos planetas e do Ascendente e do Meio-do-Céu. O mais importante é a relação que os planetas estabelecem uns com os outros no momento do nascimento, os aspectos planetários, as relações ao longo da vida, os trânsitos planetários. Só através da análise do mapa astral na sua totalidade e dos trânsitos se pode conhecer uma pessoa e prever - em termos meramente probabilísticos - as suas tendências futuras.

Os Signos do Zodíaco desempenham um papel lúdico, são um jogo social que fornece um meio para conversar, uma primeira ideia sobre alguém que se acabou de conhecer. Dá às pessoas um sistema de referências psicológicas de uso imediato, que acaba por servir como meio de identificação e de autoconhecimento. Pertencer a um Signo do Zodíaco tem uma função semelhante a pertencer a um clube de futebol, ou ser duma certa região do país, ou pertencer a um bairro. É mais um elemento de identificação, de cumplicidade, uma forma de nos colocarmos a nós mesmos numa dada posição e de nos ajudar a definir quem somos. Estes jogos simbólicos acabam por ter uma importância maior do que imaginamos, é por isso que, mesmo pessoas que de todo «não acreditam em astrologia» acabam por conhecer o seu Signo e por se identificarem com ele. Não é fácil termos uma ideia objectiva de nós próprios, para nos compreendermos acabamos sempre por recorrer a esquemas interpretativos e sistemas de referência que nos permitem situarmo-nos perante os outros e perante nós mesmos. Em grande medida acabamos por ser aquilo que acreditamos que somos.

A crença de que cada pessoa tem um determinado Signo que a caracteriza surgiu no princípio do século XX, quando os jornais tiveram a ideia de explorar um dos aspectos mais simples da astrologia: a posição do Sol nos Signos do Zodíaco ao longo do ano. Essa ideia veio a ter uma grande divulgação ao ponto de, em qualquer jornal, passar a haver uma coluna com previsões diárias para cada Signo. O sucesso desta ideia deveu-se à combinação de dois aspectos interessantes:
1. Um sistema de caracterização em doze tipos psicológicos, com o qual as pessoas se identificam, e que serve como meio rápido de identificação.
2. Previsões que davam a impressão de serem pessoais e de fazerem sentido em função das experiências vividas nesse momento.

A linguagem genérica desses pequenos textos presta-se a ser interpretada em termos pessoais e a «fazer sentido» em função das experiências subjectivas. Os seres humanos tendem a projectar-se nas coisas e a compreendê-las em função das suas próprias vivências e opiniões, é por isso que qualquer leitura sobre temas humanos pode ser interpretada como dizendo respeito directamente a nós. Ainda que não possam ser comparados com o nível de profundidade duma consulta individual feita através do próprio mapa astral, esses textos apelam ao bom senso, dão conselhos, sugerem atitudes, e levam a pessoa, a quem supostamente se dirigem, a parar por um momento e a pensar sobre si mesma, o que é bom, o que pode até ser muito útil e oportuno. Ler um horóscopo diário pode ser um momento de interioridade e de auto-avaliação, uma pequena prática espiritual.
 
No seu aspecto negativo, a astrologia dos Signos e das previsões dos horóscopos pode promover uma visão demasiado simplista e redutora de si próprio e dos outros. Se por um lado os signos do Zodíaco nos dão uma tipologia interessante - uma espécie de psicologia de algibeira para ser usada em situações sociais, como primeira forma de conhecer o outro - também há o perigo de se acreditar que essas descrições correspondem de facto à pessoa, que a pessoa se reduz a esse estereótipo. Se este jogo dos Signos for entendido como algo lúdico, daí não vem grande perigo, inversamente, se alguém acredita que a sua realidade se reduz a esses traços simples, aí está-se a promover o estreitamento da consciência e a limitação do potencial de riqueza pessoal. Cada ser humano é alguém em construção, potencialmente livre e em aberto, que pode sempre vir a desenvolver outros aspectos de si, recriar-se, renascer, adquirir novas capacidades e competências, inventar para si e para os outros novas realidades e novos modos de ser.
 
O segundo perigo da tipologia dos Signos do Zodíaco é promover preconceitos, julgamentos fáceis, discriminação, em que se deixa de olhar abertamente para o outro que se tem à frente, procurando conhecê-lo por um processo gradual de aproximação, mas antes que reduz esse outro a um conjunto de ideias feitas. É vulgar atribuir-se a cada Signo do Zodíaco um conjunto de virtudes e de defeitos. Na versão negativa, pode-se interiorizar a ideia de que todas as pessoas dum dado Signo têm certas características negativas, o que é uma grave distorção que se vai tornar num factor de julgamento sumário e de exclusão antecipada.
 
Um terceiro perigo refere-se às previsões, à promoção de crenças fatalistas e supersticiosas de que o futuro está marcado e que nada se pode fazer. Isso pode promover o conformismo, a apatia e a desresponsabilização pelos próprios actos. O fatalismo, a crença num destino inelutável, promove a impotência, a incapacidade de usar o seu próprio poder e de lutar para construir um futuro melhor. Aquilo que acreditamos ser o futuro pode ter consequências desastrosas para o presente. Neste aspecto, os meios de comunicação de massa, ao publicitarem o tipo mais simplista de astrologia, não apenas não cumprem o seu dever de informar e formar o público como passam a ser responsáveis pela promoção da sua ignorância e da sua pobreza de pensamento."


José Prudêncio em "Astrologia e Filosofia"

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